Transformação Digital – primeiro, conserte o que está quebrado!

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Empresa multinacional. A matriz decide preparar todo o grupo para entrar na Nova Economia. Labs são montados nos 4 continentes, uma organização global de inovação é criada para coordenar todas as iniciativas. Um guru indiano, desses com nome incompreensível, é escolhido para ser o “pensador digital” da empresa. A partir do ano que vem, a empresa será “tudo-as-a-service”!

Eis que, como que para contrariar estratégia tão revolucionária, a filial brasileira não consegue implementar seus projetos. Primeiro, porque os globais não haviam visualizado as necessidades locais. Segundo, não havia parceiros no Brasil para garantir a integração e a performance das soluções tecnológicas escolhidas. Terceiro, porque a arquitetura de sistemas local era uma “árvore de Natal”, com sistemas antigos e não integrados. Difícil ter uma Transformação Digital bem sucedida nessas circunstâncias…

Consertar o que não funciona é um pré-requisito básico para o sucesso da jornada de Transformação Digital. Mesmo assim, muitas empresas passam ao largo. Consertar o que não funciona corresponde a ter-se uma arquitetura de sistemas integrada, com performance, flexível e escalável, de forma que ela possa sustentar novas tecnologias e crescer para atender mais clientes, mais transações e mais negócios. Consertar o que não funciona é ter-se uma TI que governa, que mede e que lidera.  

Há 4 áreas que a alta gerência das empresas precisa resolver antes de iniciar sua jornada de Transformação Digital: (1) Definir um modelo operacional de TI; (2) Definir um modelo de investimentos em TI; (3) Construir uma plataforma digital e (4) Construir um modelo de governança de TI.

  1.  Definir um Modelo Operacional para TI
    Quando abordamos TI, estamos basicamente tratando de integração de informações/dados e de padronização de tecnologias e infraestrutura. Esta é a contribuição mais importante que a área de Tecnologia de Informação traz à empresa. TI é uma das poucas áreas que possui a visão sistêmica, horizontal e de processos de toda a corporação. Os modelos operacionais de TI tem impacto direto em toda a organização, devido à essa característica. Podem ser mais ou menos padronizados, mais ou menos integrados. A alta gerência da empresa precisa definir qual dos 4 modelos a seguir é o mais alinhado à sua estratégia digital:

Diversificado – com baixo grau de padronização e de integração de dados, o modelo Diversificado é geralmente utilizado por empresas que possuem grande número de unidades de negócio independentes. No máximo, podem se beneficiar de um centro de serviços compartilhados global para as funções de backoffice como contabilidade, consolidação e compras. Esse modelo é utilizado pela Procter & Gamble, por exemplo. Seus executivos optaram por esse modelo para ganhar velocidade no go-to-market.

Replicado – com alto grau de padronização e pouca integração, o modelo Replicado é adequado para empresas onde é possível se estabelecer padrões para os processos de negócio e tecnologias. A Cemex, empresa mexicana de cimento, desenvolveu esse modelo para facilitar a incorporação de novas empresas. Com isso, é capaz de replicar em apenas 4 meses todos os seus processos e sistemas nas empresas adquiridas.

Coordenado – o modelo Coordenado é caracterizado por um alto grau de integração de dados e sistemas e pouca padronização. A Pepsi Americas desenvolveu esse modelo para obter rapidamente as as informações de vendas de todas as suas engarrafadoras.

Unificado – modelo que combina alto grau de integração de informações e de padronização. Esse modelo é utilizado para se acompanhar transações que transitam por geografias ou negócios diferentes. A UPS, por exemplo, utiliza esse modelo para fazer a armazenagem, preparo, embalagem, logística e rastreamento de suas encomendas em qualquer lugar do mundo.

2. Definir um Modelo de Investimento em Tecnologia
A definição de como se vai investir em tecnologia é fundamental para que a alta gerência entenda a importância de cada tipo de “ativo financeiro” em tecnologia. Para ter-se um modelo adequado de funding de TI, os seguintes aspectos devem ser tratados:

Critérios e Prioridades Claras uma vez que os investimentos são escassos e que a Transformação Digital concorre com outros tipos de investimento (financeiros, aquisições), os executivos devem eleger prioridades estratégicas. A BT, empresa inglesa de serviços de telecomunicação, priorizou investir no processo de lead-to-cash; A Southwest Airlines optou por priorizar suas “transações sagradas”, ou seja, seu sistema de reserva de passagens. A Swiss Re, empresa de resseguros, definiu 20 atividades de front e backoffice como prioridades para investir.

Processo Transparente de Análise de Investimentos – a existência de um processo formal e transparente de análise e priorização de investimentos em TI é essencial para que alta cúpula da empresa tenha uma visão clara do que se está investindo e por que. Gestão por portfólios, business cases e a gestão dos custos unitários de TI são elementos que constituem esse modelo. Os investimentos devem ser tratados como qualquer ativo financeiro, com características próprias, taxas de retorno e classificação estratégica (demandas estratégicas, inovações, manutenção da infraestrutura, demandas informacionais).

Monitoramento dos impactos – a condução de revisões pós-implantação dos projetos é o garante a credibilidade do valor agregado dos investimentos em TI. Muitas empresas, inclusive, revisam seus investimentos durante os próprios projetos, sendo capazes de cancelá-los caso antevejam a não realização dos benefícios esperados. 

3. Construir uma Plataforma Digital
Após definir o modelo de operação e as prioridades de investimento em TI, deve-se focar no desenvolvimento de uma plataforma digital. O conceito de plataforma digital, nesse caso, está ligado à construção de uma arquitetura tecnológica (sistemas, infraestrutura, comunicações) que automatize, de forma eficiente, integrada e padronizada, todos aqueles processos que não mudarão. Essa solução corporativa será o “chassis” sobre o qual as inovações da Transformação Digital serão integradas. Isso permitirá também que as equipes de Tecnologia possam focar nos projetos Digitais, sem precisar “apagar incêndios” nos sistemas antigos e mal desenvolvidos.

4. Construir uma Governança
A governança de TI é o próximo quesito para assegurar o sucesso da jornada de Transformação Digital. Responsabilidades precisam ser atribuídas para a gestão da arquitetura de sistemas, infraestrutura, demandas do negócio e priorização dos investimentos de TI. Comitês executivos, gerenciais e táticos deverão ser criados para acompanhar e deliberar sobre o andamento de todas essas dimensões.

Muitas vezes a jornada de Transformação Digital é iniciada sem a devida estratégia, resultando em investimentos não alinhados e perda de tempo para as empresas ingressarem na Nova Economia. Pensa-se mais nos ecossistemas de inovação do que na vocação da empresa para seu novo papel na Economia Digital. Outras vezes a jornada é iniciada sem os pré-requisitos mínimos de se “reforçar a estrutura da casa” antes de se construir sobre ela. Sua empresa está realmente pronta para começar essa jornada?…

Sérgio Hartenberg
4 de Agosto de 2018

Referências

Artigo baseado no livro: IT Savvy, What Top Executives Must Know to Go from Pain to Gain, Harvard Business Press; unknown edition (July 7, 2009)

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