Minha primeira visita ao R.

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Faço parte do Grupo de CIOs do RJ. Apesar de sermos um grupo de executivos de tecnologia, reconhecemos a necessidade de também atuar numa dimensão social, dada a situação do país e, mais especificamente, do Estado do Rio de Janeiro.

Uma das propostas de atuação foi-nos dada por uma juíza da vara de infância, que compartilhou conosco a história do R. Esse menino disse a ela, na audiência, que estava cansado de viver na rua, que havia cometido um furto porque queria ir para o DEGASE (centro de detenção) e lá estudar. Além disso, pediu à juíza para ser visitado, já que seu pai era desconhecido e sua mãe era viciada em drogas. Ficamos sensibilizados com esse depoimento e resolvi visitá-lo hoje, com minha colega de grupo Cláudia. Esse é o relato do que vivi hoje.   

Acabei de chegar em casa do DEGASE e da visita ao R., ainda com a sensação de carinho do abraço que nos demos ao final…

Cláudia havia chegado 9:50, pegou a senha 67. Cheguei 10:15 (quase entramos errado numa comunidade), e havia mais de 30 senhas frente. A primeira coisa interessante é que ao lado da instituição havia um boteco/restaurante que vendia biscoitos e bebidas conforme a senha, ou seja, para a bebida não esquentar enquanto se espera a visita, eles permitem que o que foi comprado permaneça no refrigerador e que se pegue apenas quando a senha é chamada. Um fluxo de informação e processos já otimizado.

Enquanto esperamos (são chamadas 4 senhas de cada vez), vamos conversando com as famílias ali presentes e aprendendo um pouco desse sistema. Familiares levando ventiladores (máximo de 30cm), refrigerantes (não pode ser líquido escuro); pessoas que chegam às 6:00hs da manhã porque moram em outras cidades ou estados e não podem correr o risco de perder senha (distribuídas até 11:30hs).

Chegando a nossa hora, ficamos próximos à entrada, onde somos então conduzidos para 2 jovens que estão em mesinhas plásticas, com as listas de visitados e visitantes. Damos nossas carteiras de identidade e logo descobrimos que eles não estavam sabendo de nossa visita, não tinham informação alguma. Super simpáticos, pedem para a diretora descer e tentar resolver o problema. Enquanto isso Cláudia liga para Vanessa, para ver se conseguimos ajuda. A psicóloga e diretora, T., nos atende. Pergunta qual osso grau de parentesco e então contamos nossa história. Ela fica meio perdida, já que isso nunca aconteceu. Entende a iniciativa, mas, como responsável pela entrada, tem que tomar todas as precauções. Finalmente recebe a confirmação de que podemos ir adiante. Já são 11:45hs… Subimos a ladeira até o antigo educandário, criado em 1926, agora centro de detenção. 300 jovens, onde a capacidade na verdade era para 126. Quartos para 4 jovens onde agora dormem 8.

Ficamos em outra entrada, aguardando chamarem o R. A Diretora nos informa que deseja falar com ele junto tb, já que R. só estava lá há 2 dias e nem tinha ainda passado pelo grupo de atendimento responsável (Grupo 7). Depois de mais 1/2h aparece um rapaz de bermuda azul marinha, camiseta branca e havaianas azuis perguntando ao recepcionista: “Sou o R. “; fui chamado aqui…

Nos apresentamos ainda formalmente e vamos c a Diretora para uma salinha. A Diretora explica quem ela é, que ele ainda será atendido pelo Grupo de atendimento, mas que nós soubemos dele e que queríamos visitá-lo. Ele, com os olhos bem abertos, espertíssimo, tímido, confirma que havia pedido à Dra. Vanessa (juíza da Vara de Infância) para ser visitado.

R. nasceu em Minas (Sete Lagoas), mas veio para o RJ ainda pequeno, para a Cidade de Deus. Não conheceu o pai, a mãe é drogada e, como “fala e faz coisas que ele não gosta”, resolve sair de casa, ir pra rua, deixando seu irmão de 10 anos lá. Sua avó passa a cuidar do irmão, que segue estudando. R. quer voltar para a casa da avó e ajudar o irmão. Não quer que ele passe pelo que ele passou. Se a mãe aparecer e começar a “esculachá-lo”, vai evitá-la até ela sair da casa da avó. A mãe mora perto deles.

R. gosta de futebol, acha que tem jeito pra jogador. Gosta de box também. A instituição tem um campo de basquete, em manutenção. Há aulas de judô, ministradas pela ONG do Flávio Canto. Não sabe direito o que quer ser, mas sabe que quer estudar. R. gosta de biscoitos de morango, qualquer refrigerante, gibis da Mônica e andou lendo gibis sobre o Novo (parábola de Lázaro) e o Antigo Testamento (Moisés abrindo o Mar Vermelho), que curtiu muito. Mas gosta mesmo é de Gibi. R. ainda não sabe quanto tempo vai ficar lá, mas acha que deve ser em torno de 3 meses. Dissemos que há mais pessoas ainda que querem visitá-lo e que gostaríamos de ajudá-lo, desde que ele demonstre vontade de estudar. Ele confirma de forma veemente que deseja estudar. Está c os olhos arregalados, como querendo absorver tudo de nós. Pergunta nossos nomes e começa a nos chamar de “Seu” e “Dona”, o que rechaçamos na hora: “Sr. tá no céu”!

Sorriso tímido, dentes brancos, lindos. Uma figura que ainda não tem as marcas da violência ou os cacoetes do tráfico, ainda de coração transparente. Sem expectativas, mas capaz ainda de ter sonhos, esperança.

Isso é tanto quanto minha emoção e memória me permitem compartilhar hoje. Além do abraço gostoso que dei e recebi. Não tenho como descrever essa energia, essa emoção, esse laço que se formou naqueles segundos onde ele encostou a cabeça no meu ombro. Volto pra casa e abraço minha filha, mas meu coração e memória continuam na Av. das Canárias, com ele. Até a próxima visita, R…

Sérgio Hartenberg
Cena Digital

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