Internet-das-Coisas (IoT): Qual o Valor para o seu Negócio?

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Recente pesquisa da Forbes Insight com 700 executivos (1) identificou que apenas metade acha que está progredindo com suas iniciativas de Internet-das-Coisas. 14% estão investindo maciçamente nessa tecnologia, fomentando parcerias com seus colaboradores e fornecedores para trazer uma cultura de IoT de sucesso. Desses “líderes”, 75% cresceram mais de 10% no ano fiscal mais recente, e possuem 7 vezes mais chance de crescerem do que aquelas empresas que ainda se encontram nos estágios iniciais de adoção.

Sabe-se que a IoT aumenta a receita, a lucratividade, a segurança e a fidelidade dos clientes, ao mesmo tempo que reduz e evita custos e riscos. Mas como entender o potencial de negócio dessa tecnologia? Como fazê-la parte integrante da estratégia de Transformação Digital? Esse artigo será o primeiro de uma série dedicada à IoT, buscando apresentar as principais questões a serem consideradas para essa tecnologia se tornar uma fonte de vantagens competitivas, criando novos produtos, serviços e negócios.

Antes de mais nada, vamos esclarecer a diferença entre produtos “inteligentes”, produtos “conectados” e produtos efetivamente “IoT”. Produtos “inteligentes” já existem há pelo menos 50 anos, através do uso de sistemas embarcados em objetos “burros”. O iPhone, basicamente um “produto conectado”, já existe ao menos há 10 anos. No entanto, o advento de produtos, sistemas e ambientes à base de IoT é recente. Esses produtos, sistemas ou ambientes possuem 4 componentes: uma Proposição de Valor, um Modelo, uma Aplicação e um Analytics. O Modelo está intimamente ligado à Proposição de Valor do produto, traduzindo-a em variáveis, que serão coletadas, analisadas e projetadas.

Um secador de roupas baseado em IoT, por exemplo, tem como Proposição de Valor ”reduzir o tempo de secagem, o uso de eletricidade e gerar economias para o consumidor”. As variáveis desse Modelo seriam a temperatura, o consumo de eletricidade e o custo (dependendo da hora que a secadora for utilizada). A Aplicação, nesse caso, seria o código desenvolvido para captar, armazenar e fornecer as informações para o Analytics. Esse último irá prever o desgaste de peças, a necessidade de manutenção geral e até a carga máxima “ótima” de roupas a serem secadas num mesmo ciclo. São esses 4 componentes integrados que constituem um genuíno produto IoT.  

Utilizando como base esses componentes de um produto IoT, pode-se identificar ao menos 4 formas dessa tecnologia gerar valor ao negócio: produzir melhor, operar melhor, manter melhor e fazer novos produtos melhor.

Produzir Melhor

Há várias maneiras de se fazer um produto melhor. Pode-se adicionar funcionalidades que os produtos concorrentes não possuem, criar-se uma experiência de uso superior ou até mesmo fazer reparos de forma preventiva. Mas a melhor forma de se agregar valor ao produto via IoT é sem dúvida através de inovação ou invenção.

Vamos tomar como exemplo um produto do mundo da medicina. As cirurgias de artroplastia total de quadril são intervenções que normalmente duram de 60 a 90 minutos e tem como objetivo restabelecer a ligação entre a cabeça do fêmur e a pelvis. Para tanto usa-se um instrumento chamado “alargador acetabular”, uma espécie de furadeira, que prepara a cavidade (acetábulo) para receber a nova cabeça de femur. Ocorre que, caso a temperatura do tecido ultrapasse os 55 graus centígrados, há risco de necrose óssea. E caso o alargamento não seja feito de forma perfeita, há riscos da folga na articulação, causando imensa dor ao paciente e necessidade de nova cirurgia. Uma Proposição de Valor para o alargador acetabular IoT seria então “fazer o procedimento o mais rápido possível, mantendo a saúde do paciente”. O Modelo que representará essa proposição será função da temperatura, pressão, velocidade rotacional e tempo de cirurgia. A Aplicação deverá, por sua vez, monitorar essas variáveis, baixando sempre a velocidade rotacional caso a temperatura se aproximar do limite de 55 graus. O Analytics poderá abordar várias situações, como por exemplo a probabilidade do paciente necessitar de uma segunda cirurgia de reparo.

Operar Melhor

O aumento de eficiência é sem dúvida o benefício mais conhecido da IoT. Tendo reduzido tudo que foi possível de ineficiência através de TI, foca-se agora na Internet-das-Coisas para reduzi-la ainda mais. Consideremos o setor elétrico. A operação eficiente das redes elétricas é um desafio há mais de 130 anos. Mesmo com o advento dos sistemas SCADA e de outras tecnologias “inteligentes”, ainda é necessário enviar turmas de campo para solucionar fisicamente os incidentes e eventos da natureza. 

Vamos tomar como exemplo um “produto IoT de operação de rede elétrica”, cuja Proposição de Valor seja “reduzir custos operacionais e aumentar a disponibilidade da rede”. Nosso Modelo então considerará as variáveis ligadas ao custo de mão-de-obra, à eficiência da rede e ao tempo médio de parada da rede. A Aplicação irá monitorar todos os pontos da rede, identificando quais estão sobrecarregados, assim como atuando sobre os equipamentos e reduzindo os custos de mão-de-obra. O Analytics poderá prever a caída de árvores sobre os fios da rede, por exemplo, caso os ventos superem os 20Km/h e venham do leste.

O principal valor agregado desse tipo de produto IoT é que o Modelo pode ser aplicado a todos os “nós” da rede, desde a geração, transmissão e distribuição, até as residências dos consumidores e seus eletrodomésticos. Isso cria possibilidades absolutamente inovadoras.   

Manter Melhor

Uma das primeiras coisas que vêm à mente quando se pensa em IoT para a indústria é a manutenção preventiva, buscando otimizar ativos e reduzir custos. Veremos que as possibilidades com IoT aqui são bem maiores.

O Bagger 293 é considerado o maior veículo terrestre. Uma escavadeira de 25 andares de altura e 2 campos de futebol de largura, essa máquina é utilizada para mineração, sendo capaz de remover o correspondente a 10 carros médios de material por segundo. Vamos considerar a Proposição de Valor aqui “usar IoT para aumentar o tempo de disponibilidade da máquina, assim como reduzir as paradas não planejadas”. Como Modelo, estaremos considerando a relação entre a temperatura, a carga, a velocidade angular e a frequência vibratória. A Aplicação monitorará essas variáveis e caso a temperatura fique fora da faixa ótima (20o e 110oC), atuará também lançando água sobre as juntas. O Analytics irá prever o desgaste fatal de uma determinada junta, despachando uma turma de manutenção com a peça correta, antes do incidente ocorrer ou na época de manutenção preventiva.

Fazer Novos Produtos Melhor

A categoria dos produtos “auto-quantificáveis” é um dos maiores negócios em perspectiva. Baseado em IoT, essa categoria de produtos mede nosso metabolismo e as atividades que realizamos, constituindo um mercado extremamente promissor. Vamos examinar aqui o valor agregado para o fabricante de um relógio IoT. A Proposição de Valor aqui é “utilizar os dados de um produto para lançar outros produtos”. O Modelo será baseado na usabilidade do relógio, ou seja, nas funcionalidades que estão realmente sendo utilizadas e com que frequência. O Analytics poderá então identificar, a partir de vários relógios,  quais as interfaces e funcionalidades mais usadas. Poderá também identificar quais informações säo  “monetizáveis” para outras empresas (esporte, saúde) ou clientes (competidores na mesma modalidade esportiva). A esse tipo de oportunidade chamamos de Digital Exhaust, a qual representa atualmente uma das maiores fontes de valor agregado em IoT.

A essência do valor da Internet-das-Coisas é a transformação de dados em informação útil, seja presente ou preditiva. Isso possibilitará ações preventivas, corretivas ou a monetização de informações. Mas como monetizar as informações? Isso será objeto de nosso próximo artigo!

Sérgio Hartenberg
15 de Outubro de 2018

 

Referências

Artigo baseado no livro “IoT Inc. – How Your Company Can Use the Internet of Things to Win in the Outcome Economy”, by Bruce Sinclair, Kindle Edition, McGraw Hill Education, 2017.

(1) The Winning Formula: How Leading Organizations Are Leveraging The Internet Of Things, Aug 24, 2018, Forbes

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