CEO, Você tem Consicência Digital?

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“Seja a mudança que voce quer ver no mundo”, Mahatma Ghandi.

Cenário 1

A diretora global de Digital veio ao Brasil para passar a mensagem. Postou vídeos, fez apresentações, participou de eventos com a imprensa e fez um detalhado diagnóstico da situação digital local, com as devidas recomendações. Tudo entregue, com pompa e circunstância, para o CEO local. Caberia a ele agora levar a bandeira adiante. Doze meses depois, numa das várias reuniões globais sobre avanço digital do Grupo, a diretora constata que quase nada andou na subsidiária brasileira. Faltou budget, faltou responsáveis, faltou comprometimento, e principalmente faltou liderança.

Cenário 2

O presidente de outra multinacional acaba de voltar de mais uma reunião de resultados na matriz, onde recebeu a mensagem clara do CEO global: “esse será nosso ano da Transformação Digital. Queremos resultados em todas as filiais até o fim do ano”. Sabendo basicamente que se trata de “Tecnologia Digital”, o CEO chama o CIO e o encarrega de realizar toda a transformação na empresa.

Cenário 3

Seguindo a estratégia global de Transformação Digital, o CEO local recebe a missão de implantar um app de simulação de maquiagem virtual, desenvolvido nos EUA por uma empresa na Índia e nenhuma filial no Brasil. Tampouco há suporte para o aplicativo em horário comercial ou em Português. Os clientes têm dificuldades de usar o aplicativo, começam a reclamar nos call centers da empresa, mas não recebem suporte. Começam a chover comentários indignados nas redes sociais. A imagem da empresa está comprometida.

Parece familiar? Pois pode acreditar que isso ocorre muito mais do que se imagina – apesar de toda propaganda de modernidade das empresas globais. Porque esse cenário se repete tanto? Conforme mencionado em artigo anterior (1), há fatores que são críticos para o sucesso de uma Transformação Digital. O primeiro é o entendimento de toda a empresa de que a transformação é uma jornada, isto é, pode demorar anos e não trará resultados imediatos se o básico não for feito. O segundo, obviamente, é ter-se uma visão e estratégias digitais alinhadas aos pontos fortes da empresa. O terceiro aspecto é a consciência e a realização do papel de cada um nessa empreitada: do CEO ao colaborador mais jr. É esse aspecto que pretendo discutir aqui.

O nome “Transformação Digital”, assim como outros modismos batizados pelo marketing das empresas de tecnologia, é um tanto quanto enganoso. Não considera que a transformação que realmente ocorre é nos processos, nas áreas de negócio ou eventualmente nos modelos de negócio. Quando falamos de e-commerce, na realidade estamos buscando estratégias para aumento das vendas; quando falamos de IoT, buscamos soluções para melhorar a eficiência dos ativos; quando falamos de Data Analytics, queremos identificar as necessidades dos clientes, melhorar a comunicação e a fidelização. Segundo George Westerman (2) , professor e pesquisador do MIT, “Os Mestres Digitais focam em tornar seus modelos de negócio diferenciados através da Tecnologia, não na Tecnologia em si mesma”.

A consequência principal dessa premissa é que a Transformação Digital é uma atividade do negócio, que necessita de responsáveis em todos os níveis, com a liderança do CEO e de seu board. Abaixo discuto o papel do CEO nessa jornada:

Principal líder da Transformação Digital, o CEO é responsável pelo patrocínio da jornada. Cabe a ele entender o profundo impacto que as mudanças trarão para seu negócio. Isso só será possível através de treinamento, benchmarking, aconselhamento e vivência adequada no assunto. A maioria dos CEOs de empresas já estabelecidas não possui um histórico de contato com tecnologia, muito menos digital. Nesses casos, recomendo que procurem interlocutores de diferentes matizes, como consultores, acadêmicos, instituições de pesquisa e aceleradoras, fornecedores, pares e, obviamente, seus CIOs.

É fundamental que o CEO não se torne “refém” de mensagens alarmistas ou promessas fantásticas de fornecedores ou evangelistas do fim do mundo atual, mas procure ver pessoalmente, com empresas que já realizaram ou estão em processo de Transformação Digital, tendo assim um olhar realista sobre custos, benefícios, riscos e desafios.

Caso a estratégia seja parte de um processo global de seu grupo, é importante conversar diretamente com o líder da iniciativa e procurar entender as expectativas da matriz em relação a seu país. Deve considerar o cenário econômico, competitivo e orçamentário. Acima de tudo, deve negociar metas claras e factíveis para seu país, considerando os fatores anteriormente mencionados e a possibilidade de “explodí-las” para as demais camadas da organização.

Uma vez que a Transformação Digital poderá afetar modelos de negócio, certamente mexerá com os arranjos organizacionais e esferas de poder vigentes – inclusive com membros do próprio board. O CEO deve estar preparado para as devidas “cirurgias organizacionais”, delegando, promovendo, substituindo e eventualmente desligando os membros que não estejam alinhados com o novo modelo. Novos papéis irão surgir, podendo ser acumulados por diretores existentes – caso tenham o perfil adequado – ou gerando a contratação de novas posições, como Diretores de Inovação ou Chief Digital Officers.

Caberá ao CEO “vender”, revender e comunicar constantemente a Visão transformadora da empresa . Acima de tudo, o CEO deverá ser a revolução que deseja pregar.

 

Sérgio Hartenberg
27 de Maio de 2018

Referências

(1): Artigo “Transformação Digital – Aspectos Estratégicos”, LinkedIn https://www.linkedin.com/pulse/transforma%C3%A7%C3%A3o-digital-aspectos-estrat%C3%A9gicos-sergio-hart-hartenberg/

(2): Westerman, George. Leading Digital: Turning Technology into Business Transformation (Kindle Locations 463-464). Harvard Business Review Press. Kindle Edition.

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